Retalhos da vida de um Lancia

Sou o proprietário de um magnifico Lancia Y, colheita de 1997 e, apesar dos miúdos terem vergonha que os leve à escola no dito clássico, continuo a mantê-lo com teimosia.
Sei que ele é velhote, e sim é certo que tem as suspensões em baixo, o vidro da frente partido, água dentro das portas, o retrovisor preso com fita adesiva e manchas de bolor no tablier.
Mas não me consigo desfazer dele porque de certa forma sinto que já faz parte da família. Ele até já foi apelidado carinhosamente de “ferrugem”, tendo uns tempos depois sido promovido a “bolorento”…
Bem, mas não é por isso que vos estou a falar dele agora. Vou-vos relatar um episódio que se passou hoje, que nada tem a ver com aquela vez em que ele ficou completamente coberto de bolor, nem com a outra em que o deixei 15 dias de portas e janelas abertas ao pé dos correios e ninguém o quis levar (nem para peças).

A história que se passou hoje nada teve a ver com isso. A história de hoje tem a ver com algo muito mais profundo, relacionado com a natureza humana.
A constatação de que um objecto inanimado, pelas suas características pode acrescentar traços de personalidade a quem o usa.

Poderá um simples automóvel fazer do seu dono um verdadeiro macho?

Ok, compreendo que tenham dúvidas que o meu Lancia tenha capacidade para tanto, mas enganam-se.
Há uma coisa que ele tem, que em nada fica atrás dos Mercedes e dos BM’s.
A sua mega Buzina!
E deixem que vos diga que na sociedade em que vivemos hoje, ter uma boa buzina é mais importante que muitas outras coisas.
Acredito mesmo que há uma velha máxima que diz que: “podes não ter perfil de líder, mas se tiveres voz grossa, rapidamente conquistas o respeito dos outros machos e fémeas da alcateia.”

Percebi isso hoje, quando ia a passar ao lado do café do Sales, e o raio de um miúdo com a carta acabada de tirar, trava bruscamente à minha frente para conseguir estacionar o seu automóvel novinho em folha no único lugar que havia vazio.
A buzinadela que se fez ouvir e que até fez tremer o meu capot foi tão violenta que o fez saltar para fora do carro com um ar assustado.
Estou convencido que aquele miúdo hoje aprendeu uma lição.

Pouco depois, parei à frente do meu escritório para que a Ana pudesse ir lá buscar as chaves do outro carro.
Mal ela virou as costas, um miúda nova atravessou a rua à mesmo à frente do meu Lancia. Granda buzinadela, está claro.
Apesar do meu ar inocente, não me livrei de receber em resposta um olhar maroto e um sorriso atrevido da catraia.

Entretanto, enquanto a Ana procurava as chaves do outro carro dentro do meu escritório, lá fora ressoava com estrondo a buzina de quem não tem tempo para esperar. Acreditem que o ruído era tão ensurdecedor que fez-se ouvir em todo o bairro, afugentando qualquer cliente que existisse num raio de 10 km.

Meto a primeira e começo a descer a rua. Passo pela miuda outra vez e nova buzinadela. O piropo foi tão óbvio que ela até voltou atrás e acenou.
Entro na Av. Padre Cruz e mal chego ao semafóro ainda este não tinha mudado para verde já o carro da frente estava sobre o alvo da minha poderosa buzina.

Pelo caminho as buzinadelas sucederam-se: a um carro que mudou de faixa, a uma rapariga que se estava a fazer à passadeira e até a um casal de namorados que se beijava apaixonadamente.
Escusado será dizer que as minhas buzinadelas foram sendo acompanhadas por simpáticos comentários do tipo “Seu malcriado”, “tás com pressa, ó palhaço?” “Vai pá #%&# da tua mãe !!!”
Mas nada me fez abrandar ou mudar de rumo.

Chego finalmente em frente à oficina do Anibal, saltam mais umas valentes buzinadelas e aparece ele a correr, apercebendo-se da minha urgência.

– Então Mãos, tudo bem? – pergunta o mecânico Anibal com uma voz ofegante.
– Epá… nem imaginas o que passei para chegar aqui com a #%*& da buzina encravada!