Há uns anos, quando estava em Barcelona no Atelier com um grupo de designers de vários países, tivemos o prazer de receber uma pessoa muito especial e discutir com ele os conceitos que estávamos a desenvolver para a comunicação do festival OFFF desse ano.
Chamava-se Neville Brody, uma das referências obrigatórias do meu curso de design.
Brody foi um dos designers mais disruptores dos anos 80/90, sobretudo no desenvolvimento de tipografia e em design editorial. A sua influencia foi tão sentida que se estendeu a toda a indústria e teve repercussão internacional.
Sem ele, seguramente os jornais, revistas, livros (e já agora logotipos, paginas web…) seriam mais pobres e cinzentos.
Na semana que antecedeu a sua visita, ele foi-me descrito como sendo uma pessoa muito simpática, inspiradora e humilde. Tão humilde que chegou inclusivamente a recusar convites para falar na OFFF e em outros festivais, alegando que se deveria dar voz a gente mais nova.
Estava entusiasmado em conhecê-lo pessoalmente, mas à medida que falava com os que me rodeavam, pude constatar que a grande maioria dos designers mais novos não o conheciam nem lhe reconheciam grande mérito, pois acreditavam estar “ultrapassado”, ou seja, não tinha nada a acrescentar ao seu crescimento enquanto designers.
Confesso que nessa altura aquela situação me incomodou profundamente, porque não conseguia compreender como não estavam a reconhecer o previlégio de debater ideias com uma das maiores mentes do design de todos os tempos.
O espirito “punk” de querer mudar o mundo não reside apenas em pessoas novas com roupas cool que se passeiam por festivais criativos da moda. E não cessa necessariamente com o passar dos anos!!!
Nesse fim de semana vim a Portugal e por muito que tentasse não conseguia aceitar o “desdém” com que uma parte dos meus parceiros estava a encarar a sua presença.
Quando cheguei a Lisboa, agarrei nos trocos que tinha e comprei a minha camera. Passei o domingo a filmar e terminei de editar já no avião de regresso a Barcelona. Com os parcos conhecimentos técnicos que tinha na altura, fiz-lhe um video (tradição que tínhamos no Atelier sempre que alguém nos visitava).
Quando ele chegou, antes de iniciarmos a discussão de ideias, projectou-se o video no écran, com a sala em absoluto silêncio. Para a grande maioria das pessoas ali presentes, incluindo o Brody, foi a primeira vez que o viram.
Pelo canto do olho, fui observando atentamente às suas reacções. Percebi-lhe um certo “desconforto” inicial e por breves instantes arrependi-me de o ter feito assim. Mas à medida que o video corria, percebi que ele estava emocionado.
Na verdade não foram precisas muitas palavras… bastou-me o ver seu olhar no fundo dos meus olhos, o seu sorriso sincero e ouvir o tom da sua voz quando me disse “thank you, yuao” (João pronunciado em inglês) para perceber que ele tinha entendido claramente o que lhe quis dizer.
E quando olho para trás, dou por mim a pensar que houve tempos em que já fui uma pessoa muito ambiciosa e que já desejei alcançar o topo do mundo.
Mas a partir de certa altura percebi que muito mais do que “comer o mundo”, preenche-me sobretudo fazer coisas com significado, que à sua maneira tenham uma influencia positiva nos outros.
E gosto de acreditar que às vezes consigo desenhar uma linha imaginária e, por breves instantes, falar de alma para alma.